Precisamos falar sobre suicídio de policiais militares

A reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, com o título Suicídio de PMs cresce em SP e colocam Comando em alerta para saúde mental, mostra o crescimento de suicídios dentro da Polícia Militar de São Paulo.

Foram 34 somente em 2021, média de um caso a cada 11 dias. Tivemos, inclusive, ocorrência recente na região. É um problema de saúde mental levado às últimas consequências.

Quais as causas do aumento da taxa de suicídio entre Policiais Militares?

Conforme a própria reportagem aponta, trata-se de um problema multifatorial que no caso dos policiais militares, têm como principais fatores:

  • a rotina e escala de trabalho exaustiva
  • o risco constante de ser ferido ou morto em uma operação
  • a falta de reconhecimento no que se refere à remuneração, que leva a problemas financeiros
  • a insuficiência de suporte de serviço de saúde mental
  • a depressão
  • os conflitos institucionais, inclusive o assédio moral
  • os conflitos familiares e os relacionamentos amorosos
  • a desregulação do sono, a privação de convívio familiar, o isolamento social, a rigidez e a introspecção
  • além do fácil acesso a arma, que também aparecem

Mas, em resumo, é o estresse inerente à função policial que é citado com destaque nessa lista de fatores, fato que não é exclusividade da Polícia Militar paulista, pois embora as pesquisas apontem que a taxa de suicídio de policiais aqui no Brasil é até 6 vezes maior que a do restante da população.

Esse fenômeno do suicídio por policiais ocorre no mundo inteiro, conforme pude constatar in locu nas pesquisas que fiz nas polícias americanas e europeias.

Quais soluções são necessárias?

Dar solução a esses fatores depende muito da vontade governamental.

Porém, os comandantes têm que ser facilitadores junto ao seu efetivo, buscando minimizar que os efeitos gerem o resultado indesejado do suicídio.

Mas, enfatize-se: é importante  o governo dar viatura, armamento e uniforme, mas deve também, e principalmente, cuidar do ser humano, cuidar da saúde mental do PM!

O que desenvolvi para redução das taxas de suicídio entre policiais militares?

Vou apresentar alguns exemplos de ações desenvolvidas no CPI-5, quando eu era Comandante, que visam exatamente a minimizar esses efeitos com os quais o Comandante não pode solucionar por si só, iniciando pelo básico, que é evitar que o policial sequer cogite idealizar o suicídio. 

Para conseguir isso, adotamos na minha gestão no CPI-5, dentro das possibilidades de nossa função, primeiramente a promoção de um ambiente organizacional que não fosse opressivo aos indivíduos que integram a instituição.

1 – Abertura e estímulo ao diálogo

Não podemos restringir a individualidade e fazer os policiais se sentirem desmotivados por não poderem bem se expressar nem decidir.

Para isso passamos a valorizar a iniciativa, responsabilidade ou resolução de problemas e os policiais militares sob nosso comando mudaram positivamente seus comportamentos, conforme verificamos em suas ações.

Nessa seara ainda conseguimos nos reunir com o efetivo de todas as companhias operacionais para falar, orientar, mas também ouvir os PMs.

Limitar a liberdade (inclusive de expressão) dos integrantes da Força Pública gera frustração nos policiais e, consequentemente, remete-os a pensamentos negativos, levando-os, por fim, à infelicidade. 

2 – Valorização da família do policial militar

Além do tratamento mais humanizado, procuramos atuar na valorização da família do PM. Por exemplo, fizemos uma festa das crianças voltada exclusivamente aos filhos dos policiais, festa de final de ano, condecorações na presença de familiares, encaminhamento de carta aos familiares pelos bons serviços prestados e até campanha de entrega de cestas básicas aos policiais militares necessitados.

3 – Escalas reduzidas para cuidados com mente e corpo

Também fomentamos o atendimento de necessidades dos policiais, atuando para que tivessem escala de serviço reduzida para fazerem atividade física e treinamento durante o serviço.

Criamos um sistema complementar de apoio psicológico com oficiais voluntários, bem como apoio médico de psiquiatras de fora da instituição e investimos também em apoio religioso.

4 – Construção de imagem pública

Atuamos também para melhorar a imagem pública do policial perante a imprensa, bem como por meio do reconhecimento de personalidades, artistas e da própria comunidade, que passaram a valorizar o PM diante dos excelentes serviços prestados.

Diante desse quadro, diminuímos muito o sentimento que alguns policiais têm de estar à margem da sociedade a que servem, sendo constantemente comparados a criminosos pela população e pela mídia, fato que ajudou muito na manutenção da saúde mental, pois tais militares passaram a se sentir integrantes da sociedade que buscam proteger, sendo mais valorizados, minimizando-se um fator de risco para o suicídio policial. 

5 – Palestras educacionais e preventivas

Ainda fizemos duas palestras preventivas a todo o efetivo dando informações e divulgando medidas a serem adotadas em relação aos colegas de farda que deram os primeiros sinais (ideação) suicida, ensinando como identificá-los e como tratá-los.

Aos que, por fim, demonstraram sentimentos indicativos de risco suicida como a depressão, desesperança, desamparo e o desespero, atuamos para evitar a reincidência de tais comportamentos com o acompanhamento médico devido, incluindo-se profissionais de várias áreas diante da complexidade de fatores que envolvem tal problemática, levando a que nossos índices de suicídio consumados na região que comando estivesse em patamares bem mais baixos. 

Com base nessa experiência, como vice-presidente da DEFENDA PM, uma associação que congrega oficiais da Polícia Militar, conseguimos reunir profissionais voluntários dentro da Associação para realizar, em setembro de 2020, o projeto “Cuidando de quem cuida da sociedade”, que promoveu um ciclo de palestras on-line a policiais militares de todo estado de São Paulo, da ativa e da reserva, visando a cuidar da saúde mental de todos durante a pandemia. 

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